sexta-feira, 4 de agosto de 2017

SOBRE ANDANÇAS COMO JUIZ NO INTERIORZÃO - MAIL DO MAGISTRADO APOSENTADO ADONIS FAUTH


Caro amigo Ruy.

Gostei muito da tua volta às páginas da Gazeta do Sul. Em especial quando relataste os teus primeiros anos na Magistratura, percorrendo esse – em geral - pouco conhecido interior gaúcho. Ainda mais naqueles anos 1970. Com deliciosas histórias agora cinquentenárias. Ou quase. Fez-me lembrar as histórias que também vivi como juiz de Direito com a diferença de quatro ou cinco anos após os teus périplos pelo interiorzão do Rio Grande.

Como tens destacado, foi uma notável lição de vida e de conhecimento, criando novos conceitos pessoais e vencendo antigos preconceitos. Tive a mesma origem, as colônias alemãs, para nós até então “o umbigo do mundo”, com a natural passagem por Porto Alegre nos anos de estudos e formação. Mas, o que sabíamos sobre esse notável Rio Grande, de tanta riqueza étnica, tradições e culturas ? Nada ! Quando muito conhecíamos um pouco sobre a tal de Revolução Farroupilha, que existira um índio chamado Sepé Tiaraju, coisas superficiais.

Nessa década de 1970 o Rio Grande vivia o deslanchar de uma nova Economia, calcada numa tal de soja que transformava a “Zona da Produção” num mar verde e fazia virar os séculares campos de gado até das Missões de Santo Ângelo ou São Luiz Gonzaga.

Minha passagem de Estrela para Tapera foi um choque, não cultural porque os colonizadores daquela região eram oriundos das “colônias velhas” de Santa Cruz e mesmo de Estrela, nas migrações do começo do século 20. Até parentes tínhamos por lá. O choque foi econômico. Saía de um região de minifúndio, de propriedades de dez hectares e chegava no meio dos novos ricos que ficavam tristes quando colhiam só 20 mil sacos de soja... Contraditoriamente, o asfalto não chegara e transitar pelo barro vermelho foi dos primeiros desafios da Brasilia azul e do novo juiz. Ou juiz novo.

As piscinas proliferavam e a soja chegava até as suas bordas. Mas a casa do juiz nem telefone tinha. Saíra de Estrela, uma das pioneiras do DDI – podíamos falar direto com o Japão – e para telefonar de Tapera para os parentes de Estrela tinha que ir até a Delegacia de Polícia ali perto, onde havia um telefone a manivela. Mas o colono sabia tudo da Bolsa de Chicago. Era o novo Rio Grande que se formava, cheio de contradições.

O segundo tempo da minha Magistratura começou meses depois, no começo de 1978 quando cheguei em Giruá, nas Missões. Ali as diferenças eram outras: culturais. Giruá teve origem missioneira pois integrava o município de Santo Ângelo. Na época das migrações internas chegaram os alemães de Boca da Picada, os italianos e os poloneses de Salgado Filho e de Guarani das Missões. Uma comarca multiétnica. Experiência nova para aquele juiz novo, mescla de alemão com suíço-francês.

Logo chamou a atenção a igualdade nas diferenças. O respeito mútuo e a integração. Alemão pilchado frequentando o CTG, sem esquecer as suas próprias origens. E fui descobrindo a riqueza étnica e cultural deste Rio Grande. Os poetas, a literatura, a música da Califórnia que começava a estourar por todo Estado. Naquele tempo tudo isso soava ainda estranho para os oriundos das colônias velhas.

Tivemos oportunidade de conhecer o Rio Grande como um todo, essa notável mescla que forja o gaúcho de hoje e o torna tão orgulhoso de sua terra. Tivemos que curtir estradas precárias, longas distâncias, longe dos parentes e amigos, mas foi uma experiência notável de vida, não é isso caro amigo Ruy ?

                                              - o O o –

Um historinha para concluir.

Ali por 1973, o advogado Gustavo Simon resolveu encabeçar a volta do Estrela FC às lides do campeonato gaúcho. Como colega, aceitei a árdua missão de ser o diretor de futebol e com meu irmão Adilson Fauth, professor de Educação Física, começamos a colocar o time em campo.

Num dia de treinamento apareceu um baita alemão dizendo que era de Arroio do Meio, gostava de jogar futebol, de zagueiro. Pediu para participar eventualmente dos treinos do Estrela FC apenas por gosto e como praticante de uma atividade física.

Aceitamos. Treinou entre os aspirantes, era forte prá burro, deu seus bicos à moda do moderno Paulão e no final saiu suado e satisfeito.

Na saída, na dúvida, perguntei:

- Como é mesmo o seu nome ?

- Ruy Gessinger, sou juiz da comarca de Arroio do Meio.